Breve histórico do Bairro Demétria

bairro demetria botucatu

Dois grupos de pessoas uniram-se para dar nascimento à Estância Demétria em 1973/74. Por um lado os fundadores da Giroflex e da Associação Tobias em São Paulo e pelo outro um grupo de jovens que assumiria o dia-a-dia da Estância Demétria. O primeiro grupo criou as condições retirando as terras da esfera patrimonial privada e viabilizando os investimentos necessários no decorrer de vários anos. O segundo grupo encontrou nestas condições especiais a oportunidade para realizar os ideais que motivavam esses dois grupos. A Antroposofia como caminho de conhecimento, com ênfase na agricultura biodinâmica e na busca por inovação social foi o ingrediente principal a deixar a sua marca nessa semente que queria brotar.

Parece oportuno mencionar pelo menos quatro nomes que, naqueles momentos iniciais (1974), representaram os grupos mencionados: os empresários e irmãos Joaquim e Pedro Schmidt e os ainda pouco experientes e amigos de infância Jorge Blaich e Marco Bertalot-Bay. Mal sabiam eles dos desafios que surgiriam nessa longa e por vezes dura caminhada que iniciavam e à qual muitos se juntariam no decorrer dos anos. Será que ao menos sonhavam com o que hoje se tornou o Bairro Demétria?

A terra escolhida, ou melhor, a areia escolhida no final de 1973 e formalmente adquirida nos primeiros dias de 1974 expunha as feridas causadas pelo “manejo” agropecuário tradicional com suas queimadas anuais que pretendiam devolver um pouco de verde às invernadas castigadas pela seca e pelas geadas. Na memória dos que lá estiveram nesses primeiros tempos certamente ainda está aquele sobrevivente ipê amarelo de cerrado com seus galhos retorcidos em meio à macega rasteira com algum capim gordura e muita barba de bode.

Mas não era exatamente isso o que esses pioneiros procuravam? Não pretendiam re-fertilizar a terra e aprender a convivência? Uma lista das atividades que aqui surgiram no decorrer destes 30 anos pode nos dar um começo de resposta:

1- a “Estância Demétria, origem do bairro, que foi a primeira fazenda biodinâmica no Brasil e que chegou a ter trinta hectares de verduras, vinte hectares de ervas medicinais e mais de 100 funcionários. Há poucos anos ela juntou-se ao vizinho “Sitio Bahia” e a partir daí concentrou-se mais na produção de leite, seus derivados e na proeza de produzir até trigo nesses solos ainda bem arenosos. Uma padaria e uma lojinha com inúmeros produtos é um dos atrativos para os vizinhos, mas também para os moradores de Botucatu;

2- a “Escola Aitiara” de Pedagogia Waldorf, pauta-se por uma proposta de integração social e hoje tem mais de 300 alunos do campo e da cidade;

3- a “Associação Brasileira de Agricultura Biodinâmica” realiza pesquisa, cursos e presta consultoria a centenas de produtores rurais por todo o Brasil;

4- a “Associação Instituto Biodinâmico”, primeira e maior certificadora brasileira com mais de 3.000 produtores certificados e também única brasileira com credenciamento internacional;

5- a “Editora Agro ecológica” que, entre outras publicações, edita uma das melhores revistas do ramo;

6- o “Instituto Elo de Economia Associativa” que realiza o “Curso de Especialização em Agricultura Biológico-Dinâmica” (pós-graduação lato sensu) em parceria com a Associação Biodinâmica e com a Universidade de Uberaba (MG). Em seus 12 anos de existência esse curso contou com o interesse de mais de 1.500 profissionais vindos até de outros países;

7- a “Comunidade de Cristãos”, um movimento de renovação religiosa, com uma belíssima igreja recém construída;

8- a “Associação Nascentes” de preservação ambiental e recuperação dos aquíferos da região que também realiza a coleta seletiva do lixo do bairro;

9- o “Curso de Formação de Euritmia”, calorosamente acolhido no espaço da escola de teatro “Artistas S.A.” em Botucatu.

Salta aos olhos o fato de que quase todas estas entidades que formaram a base desse desenvolvimento são Organizações Não Governamentais (ONG´s) sem fins lucrativos.

Mas há ainda uma “Feira Orgânica”, uma atividade de assessoria a pequenos produtores da região e comercialização de seus produtos, uma “Casa do Mel Alvorada”, uma “Marcenaria Buriti”, a pousada e restaurante “Arco Iris” e o “Café Some”, pousada, restaurante e loja de conveniências, uma badalada “Pizza Bel”, uma pequena indústria farmacêutica. Uma escolinha de teatro e uma de capoeira. O “Ramo Jatobá” da Sociedade Antroposófica que realiza estudos semanais e promove palestras. Um músico que constrói e literalmente forja instrumentos musicais, vários outros músicos, um coral, um pequeno museu, uma creche, o grupo de artistas “Persephone”, artistas plásticos, uma oficina de artesanato “Casa Adão e Ema”, euritmistas, oficinas, terapeutas, médicos, massagista rítmica, advogados, economistas, mecânico, arquiteto, dentista, aposentados, cabeleireira, agricultores, professores e até mesmo uma brigada de incêndio e uma escola de samba… Todos, de alguma maneira, enriquecem a paisagem econômica, social e cultural deste bairro que, ao longo do tempo, passou a contar com vários condomínios residenciais, intercalados a áreas agrícolas e pecuárias, sempre mais arborizadas. Um olhar mais atento perceberá ainda várias residências e mais algumas outras obras que foram construídas com o intuito de desenvolver uma arquitetura inspirada na Antroposofia para esta região. Projetadas por um arquiteto morador do bairro, estas obras conferem à paisagem uma marca e uma característica estética toda própria.

Sem quase nenhum planejamento conjunto, estas atividades e os moradores do bairro, interagem de maneira ainda caótica. Mas a prova de que existe disposição para algum tipo de coordenação é o recém formado e já bastante ativo “Conselho do Bairro Demétria”. Por outro lado há também aquela saudável rejeição ao centralismo gerador de monoblocos. Este tema talvez signifique um grande desafio, mas também uma força para o futuro desenvolvimento desse bairro.

Aí está uma oportunidade para prestar a devida homenagem aos dois casais que, em meio a todas as adversidades da fase pioneira, persistiram mantendo acesa a chama durante os longos anos de “vacas magras” até que esse bairro criasse raízes e vida próprias: Jorge e Eldbjorg Blaich e Annemarie e Dieter Pfister. Ainda haverá oportunidade para homenagear todos aqueles que também “botaram a mão na roda” e que no contexto deste artigo permanecem no anonimato. Mas ainda é imprescindível prestar homenagem aos responsáveis pela Associação Tobias que à distância (pois têm sua sede em São Paulo) e de uma ou de outra maneira, direta ou indiretamente, apoiaram decisivamente todas as atividades acima mencionadas. Profunda gratidão é um sentimento que certamente vive no coração de todos aqueles que tem consciência do presente que ganharam ao poderem aqui se estabelecer.

E o que resultou de tudo isso? Basta comparar as áreas destinadas à agricultura convencional nas redondezas com as áreas em cultivo biodinâmico no próprio bairro para inferir os avanços ocorridos nestes 30 anos. O solo está mais fértil, é mais portador de vida. Inúmeras árvores e muito verde plasmam a paisagem. Pouco a pouco fomos descobrindo a riqueza da flora e da fauna originais do cerrado que estão podendo ser preservadas em algumas áreas. Ao nos mostrarem toda a sua beleza e diversidade convidam-nos a participar da formação da paisagem que nos cerca. Flores, pássaros, coelhos, insetos e muitos outros bichos repovoaram estes espaços. Mas também os humanos aqui se desenvolveram. A população humana nestas áreas, no início dos anos 70, provavelmente não passava dos dez moradores. Hoje são mais de quatrocentos; isso sem falar dos seus cães, gatos, vacas, cavalos e outras criações… Enquanto, no início, a fertilidade do solo inexistia, a dos jovens casais já produzia crianças em abundância. E estas demonstravam saber o que queriam: entre muitas outras coisas uma boa escola. Tanto os condomínios residenciais que se formavam ao redor da Estância Demétria quanto a então fundada Escola Aitiara abriram caminho para inúmeras famílias que procuram o que aqui parecem estar encontrando…

Mas o que é que procurava essa gente - a maioria de origem urbana - que pra cá se mudou enquanto ainda não havia os atrativos atuais? Solo arenoso e paisagem ressecada? Fuga do incômodo telefone e do trânsito? Aversão à boa música, e ao bom teatro? Quais são os ideais que impregnaram o nascimento deste lugar?

Não são poucos que percebem que se trata de um lugar onde se procura cuidar da natureza e onde a convivência social é vista como um desafio a ser trabalhado permanentemente. No entanto, também deve-se reconhecer que ainda pouco do que foi feito se aproxima desses ideais. Mas o que se pode dizer é que muitos moradores demonstraram ter uma certa força e persistência em persegui-los. E em alguns momentos fugazes eles parecem tão próximos… tão alcançáveis…

Por tudo isso queremos comemorar… afinal são trinta anos! Queremos compartilhar e refletir sobre os frutos e sobre a origem dessa maravilhosa oportunidade que nos permite gostar do que aqui podemos fazer. E certamente cabe ainda perguntar:"Quais são as verdadeiras fontes que alimentaram e possibilitaram esse desenvolvimento?"

Marco Bertalot-Bay
Bairro Demétria, março de 2004



Assine o nosso informativo:

DMC Firewall is a Joomla Security extension!