Como a simples concepção de salário pode mudar a sua vida!

salário não é custo

Conhecemos muito bem a superfície do mundo exterior, mas somos pouco práticos e ineficientes em tudo o que diz respeito, entre outros, à economia.

Com pequenos exemplos - como neste artigo do economista Udo Herrmannstorfer - é possível constatar a sua força transformadora para uma prática econômica mais includente e muito mais eficiente do ponto de vista ambiental e social.

O trabalho na economia ocupa um papel central, pois afeta diretamente o ser humano. Assim como lidamos com o trabalho, da mesma forma lidamos com o ser humano. Por isso, aquilo que chamamos levianamente mercado de trabalho, em realidade, é justamente um mercado moderno de escravos, com a diferença, em relação ao passado, que o ser humano se oferece espontaneamente.

As amarras físicas são substituídas pela dependência do salário, que só pode ser conseguido através de uma participação direta na vida econômica. Assim, é compreensível também que a questão do trabalho e dos salários tenha desencadeado as mais ásperas discussões e conflitos sociais.

Uma empresa é o espaço em que, através do trabalho conjunto organizado, são gerados produtos e serviços para satisfazer as necessidades das pessoas. Em geral, esse processo só pode acontecer com a ajuda de um investimento inicial na forma de capital (em relação a este aspecto, não importa se se trata de capital próprio ou crédito). O investimento inicial permite a aquisição de terras, edificações, máquinas, materiais primas, estoques e financiamento do capital de giro. Os produtos, gerados em conjunto, são vendidos por um preço correspondente, em nome da empresa, para o próximo elo da cadeia econômica, que pode ser um atacadista, um comerciante varejista ou o próprio consumidor final. A soma de todos os preços dos produtos constitui o faturamento da empresa.

Neste ponto invertemos a direção do movimento no interior da empresa: a receita monetária que entra na empresa deve ser distribuída de tal forma que o processo empresarial possa ser continuado. Devem-se pagar as matérias primas compradas, a depreciação do capital investido e os juros para pagamento do capital investido. O restante é o valor gerado pela própria empresa, ou seja, corresponde ao chamado valor agregado. Este valor restante pode, portanto, ser repartido entre as pessoas que participaram deste processo de geração de valor. (É verdade que, através de impostos, também se incluem nesta distribuição pessoas que não estão presentes na empresa. Com isso, pagam-se, de fato, serviços oferecidos à comunidade sem a contrapartida do pagamento.) Os salários, portanto, constituem a participação no valor agregado pela empresa e não o seu custo. Eles também não constituem o preço do trabalho e, sim, o valor que possibilita a sua realização. O que é vendido não é trabalho, mas os seus produtos. Entendido desta forma, o salário passa a integrar as principais metas da empresa, cuja meta global é gerar serviços ou produtos demandados pelo consumidor. Este, por sua vez, deve pagar um preço que permita aos colaboradores da empresa realizar a respectiva produção ou prestação de serviços.

É tarefa do Estado criar as condições jurídicas que possibilitam uma tal distribuição dos valores gerados entre os participantes, de forma a garantir a igualdade de direitos. (De fato, hoje em dia as negociações discutem apenas os salários e não o valor agregado como um todo. Isto se deve ao fato de as relações de propriedade se sobreporem as relações de trabalho.)

Existem um série de barreiras e regulamentações sociais que se contrapõem a esta nova forma de conceber a relação trabalho-salário.

1-A principal barreira é dada pelo sistema tributário. Uma de suas principais metas é a tributação do lucro de uma empresa. Toda contabilidade está estruturada de forma a tributar, no final, o lucro e não a geração de valor. É por isso que os salários são considerados uma classe de custos que diminui o lucro. Em vez de separar salários e lucros apenas no final no demonstrativo de resultado, os salários são logo atribuídos aos custos da empresa. Os sentimentos sociais dos trabalhadores não poderão ser saudáveis, enquanto o trabalho for tratado como uma classe de custos. O ser humano não é um custo para economia a ser diminuído; ao contrario, a tarefa da economia é prover o ser humano de uma receita.

É urgente que as empresas passem imediatamente a elaborar contas baseadas no valor agregado e que as mudanças correspondentes sejam introduzidas, mesmo que tenham apenas o caráter de contas auxiliares.

2-Do ponto de vista dos sindicatos, argumenta-se contra o sistema de participação no valor agregado, pelo fato de os salários ficarem assim sujeitos à oscilação dos preços. O trabalho, justamente através dessas medidas, seria transformado em mercadoria. O trabalhador tem interesse num salário fixo constante. Por isso, as empresas seriam obrigadas a considerar os salários como grandezas constantes, como por exemplo os aluguéis e outros custos.

Essa argumentação baseia-se numa incompreensão do significado da participação no valor agregado. O que se encontra no centro das considerações não é o preço do trabalho e, sim, o seu calculo a partir dos preços dos produtos gerados. Estes são sempre a última grandeza de referência, mesmo quando se discutem questões salariais. A participação percentual fixa apenas deixaria esta interdependência mais claramente visível. Por outro lado, ela teria a vantagem de o lucro não poder ser aumentado unilateralmente às custas do trabalho. E, para a empresa, haveria a vantagem de os salários não precisarem ser tratados como custos fixos independentes do preço. Com isso, a formação do preço passaria a ocupar novamente o seu devido lugar: o centro das considerações. A exigência dos sindicatos por uma estabilidade salarial deveria ser seguida através de uma estabilidade de preços.

Se quiséssemos levar o ponto de vista dos sindicatos até as últimas conseqüências, deveríamos introduzir a proibição das demissões. Esta medida não teria sentido, pois exigiria a introdução da obrigatoriedade da compra por parte do consumidor. Portanto devemos procurar outro caminho, que poderia consistir em incluir, na participação nos valores gerados, não somente os trabalhadores, mas também os desempregados. Dessa forma, ficaria evidente que só é possível aumentar o montante a repartir, quando aqueles que se tornaram desempregados, pela introdução de economias de trabalho, puderem encontrar uma nova colocação. Enquanto isso não ocorrer, todos devem participar em conjunto da repartição dos valores de fato gerados. Dessa forma, a economia não continuaria a distanciar-se dos seres humanos de uma determinada sociedade. E seria possível evitar que ela se desenvolvesse unilateralmente às custas dos próprios seres humanos. O desemprego seria carregado por todos. A pergunta sobre quem deveria financiar os desempregados teria sido respondida: - a economia como um todo.

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