A Agricultura Biodinâmica e as Abelhas

A Agricultura Biodinâmica e as Abelhas

Porque elas estão morrendo?

Quem conhece um pouco a Agricultura Biodinâmica sabe da importância das abelhas na formação do organismo agropecuário e no âmbito da vida.

Rudolf Steiner dedicou-lhes um ciclo inteiro de palestras (publicadas em português pela Editora Antroposófica) atendendo a perguntas dos operários que trabalhavam na construção do primeiro Goetheanum (sede da Sociedade Antroposófica na Suíça).

A seguir publicamos o artigo do Professor Adilson Paschoal, da ESALQ que também já foi professor do Curso de Especialização em Agricultura Biodinâmica promovido pelo Instituto Elo.

Neste artigo o professor Adilson responde a pergunta: porque as abelhas estão morrendo? E o que podemos constatar é que a mesma mentalidade e postura que nos leva a produzir agrotóxicos e fertilizantes químicos também afeta direta e dramaticamente a vida das abelhas e com elas a nossa própria sobrevivência.

Aquecimento global, agrotóxicos e polinizadores

Em memória do Dr. Shiro Miyasaka, recentemente falecido, engenheiro agrônomo japonês, formado na ESALQ em 1951, pesquisador aposentado do Instituto Agronômico de Campinas, responsável por importantes trabalhos sobre adubação verde na recuperação de solos, tendo sido um dos responsáveis pela introdução da soja no Brasil, e um dos defensores da agricultura orgânica, natural, em nosso país.

Insetos polinizadores, como as abelhas sem ferrão (meliponíneos, como a jataí e a arapuá), mamangavas (gêneros Bombus e Xylocopa) e abelhas melíferas comuns (gênero Apis) têm importância fundamental na produção agrícola e na qualidade dos alimentos. Estima-se que no Brasil o valor econômico da polinização seja de doze bilhões de dólares, equivalentes a 30% da produção das culturas agrícolas. A polinização, em nosso país, é essencial (90% a 100%) para o maracujá, a melancia, a acerola e o melão; alta (40% a 90%) para a maçã, a pêra, a ameixa, o pêssego, o abacate, a goiaba, o girassol e o tomate; modesta (10% a 40%) para o coco, o café, a canola, o algodão e a soja; e baixa (0% a 10%) para o feijão, o caqui e a laranja. Para os Estados Unidos, os valores são os seguintes: amêndoas (100%), maçã (90%), mirtilo (90%), pêssego (48%), laranja (27%), algodão (16%), soja (5%). Morangos produzidos em ambientes fechados, sem polinizadores, apresentam frutos deformados, de baixo valor econômico. Milho, arroz e trigo são polinizados pelo vento. O Brasil é o oitavo país no mundo em produção de mel, com faturamento aproximado de 360 milhões de reais (2015), sendo mais da metade dele exportado.

Apesar da importância crucial dos polinizadores na produção de alimentos e do potencial econômico da apicultura e da meliponicultura, as abelhas vem sendo dizimadas em todo o mundo. Na China, a situação tornou-se dramática, surgindo os “homens abelhas”, pessoas que precisam subir em árvores para realizar o papel dos polinizadores, extintos em várias regiões, pelo uso excessivo de agrotóxicos. Estudo conduzido na Escola Politécnica (USP) mostra que o aquecimento global poderá ter significativo efeito sobre esses insetos, notadamente na região Sudeste do Brasil, reduzindo a produção agrícola de várias culturas.

Efeito mais drástico e imediato, entretanto, é pelo uso de agrotóxicos, que atingem as abelhas diretamente, por aplicações aéreas nas plantas, ou indiretamente, pelo uso de produtos sistêmicos, que, absorvidos pelas raízes ou pela parte aérea das culturas, contaminam as flores por elas visitadas (uma só abelha pode visitar dezenas de milhares de flores por dia), causando mortes acentuadas de colméias, reduzindo a produção de mel e de outros produtos apícolas (própolis, geléia real, cera), e de culturas que dependem de polinização por esses insetos. Assim é que no Rio Grande do Sul, o maior produtor de mel do país, 250.000 colméias foram exterminadas em 2015, notadamente pelos agrotóxicos neonicotinóides (derivados sintéticos potencializados da molécula da nicotina). Situação parecida ocorre no Nordeste, segunda região maior produtora de mel do Brasil, depois da região Sul, onde esse agrotóxico tem dizimado colméias em áreas produtoras de melão. Em São Paulo, o extermínio de colméias tem sido provocado por pulverizações aéreas de agrotóxicos em canaviais.

Os neonicotinóides matam as abelhas de diferentes formas: por intoxicação direta, afetando seu sistema nervoso, o que faz com que elas percam a noção de direção, não conseguindo voltar à colméia; desregulando seu sistema imunológico, tornando-as suscetíveis às doenças virais, a que eram resistentes antes do contacto com esses tóxicos; contaminando a água exudada pelas plantas, que lhes serve de bebida, e que contém resíduos elevados desse veneno agrícola. Além das abelhas, outros polinizadores também são afetados: borboletas, mariposas, besouros. Aves, peixes e mamíferos são também intoxicados. Alguns desses agrotóxicos são cancerígenos humanos (câncer de tireóide).

Pela morte de polinizadores, com consequente diminuição acentuada na produção de culturas, esses produtos foram proibidos em vários países. Aqui, os neonicotinóides continuam agindo impunemente, malgrado os prejuízos por perdas nas produções agrícola e apícola, sendo mantidos no mercado sob a alegação, pouco convincente, de que não há substitutos adequados para eles, como se agrotóxicos fossem a única técnica existente para o manejo de pragas e patógenos.

É preciso que se entenda que em áreas tropicais e subtropicais o fator biológico (inimigos naturais, competidores etc.) é muito mais importante do que os fatores químico (agrotóxicos) e físico (clima) no manejo de pragas: também, que os agrotóxicos matam mais o que não é praga (os inimigos naturais e outras espécies úteis) do que a praga, gerando desequilíbrios biológicos, elevando espécies secundárias (que não causam danos acentuados) à condição de pragas primárias e criando resistência aos produtos usados no seu controle.

O arsenal químico não resolve, como nunca resolveu, de forma estável e permanente, o problema de pragas, principalmente em áreas tropicais. Já tivemos agrotóxicos minerais, que foram substituídos por clorados, substituídos depois por fosforados, trocados por carbamatos e, mais tarde, por piretóides e, agora, por neonicotinóides. O controle químico intensivo de pragas tem pouco mais de 60 anos; o biológico, pelo menos 400 milhões de anos, que é o tempo em que os insetos estão neste mundo, as espécies ajustando-se umas às outras em interações estáveis de predador-presa e de parasito-hospedeiro. O que os agrotóxicos têm feito nessas poucas décadas de uso é quebrar tais interações harmoniosas milenares, criando mais problemas do que realmente solucionando-os.

As abelhas são muito afetadas pelos agrotóxicos por uma única razão: não têm (como as espécies fitófagas, dentre as quais as pragas) resistência como mecanismo pré-adaptativo. Ao longo de milhares de anos evoluindo com as plantas de que se alimentam, as espécies fitófagas desenvolveram resistência às toxinas desenvolvidas naturalmente pelas plantas para poderem sobreviver aos ataques (várias dessas toxinas naturais são usadas pelo homem para combater pragas, como a nicotina, a piretrina, a rotenona; outras foram sintetizadas a partir de suas moléculas). Esse mecanismo — chamado co-evolução — não existe nas abelhas. Nelas, pelo contrário, cuja presença é benéfica às plantas, pela polinização que realizam, a co-evolução deu-se no sentido de um mutualismo, beneficiando a ambas, cabendo às abelhas, como moeda de toca, o néctar e o pólem, necessários à sua sobrevivência.

Como espécie muito recente neste mundo, o homem só irá superar os problemas que criou, quando aprender a trabalhar com a natureza e, não, contra ela.

Adilson Dias Paschoal
Adilson Dias Paschoal
é Professor Titular da USP.
Professor Sênior do Departamento de Entomologia
e Acarologia da ESALQ.

 

especialização em agricultura biodinamica


INÍCIO PRÓXIMA TURMA:
11 de novembro de 2017

Veja mais informações



Assine o nosso informativo:

DMC Firewall is developed by Dean Marshall Consultancy Ltd